A escravidão no Brasil
representou a base econômica durante
a Colônia e o Império. Como nos
lembra Gilberto Freyre, os escravos
foram "as mãos e os pés dos senhores
de engenho". Esta afirmação pode ser
ampliada para todos os setores que
direta ou indiretamente utilizaram a
mão-de-obra escrava como sua
principal força de trabalho, seja como
escravos de ganho ou agrícolas.
Por quase três séculos a
existência da escravidão foi uma
instituição praticamente inquestionada
no Brasil. Após a Revolução Industrial inglesa a escravidão passa a ser questionada
em todas as áreas do globo. Surge um novo projeto econômico baseado na utilização
do trabalho livre. A Revolução Francesa também empresta sua ideologia à conjuntura proclamando a igualdade e a liberdade como direitos básicos do povo.
Obviamente
essas palavras ganharam significados distintos dependendo do grupo social que o
utilizava. A liberdade era reivindicada pelas elites americanas desgostosas com a
opressão de suas metrópoles, mas também pelos escravos em relação aos seus
senhores.
Nesse sentido, as pressões foram muitas sobre o Brasil para que efetuasse
sua abolição da escravatura e contava com um exemplo bem sucedido, do ponto de
vista das elites, de abolição no continente: a experiência dos Estados Unidos.
No
entanto, apenas a partir da segunda metade do século XIX é que começa a delinear -
se de maneira mais consistente o que chamamos de movimento abolicionista.
Este movimento, composto em sua maioria por intelectuais, militares, pequenos
empresários, advogados, jornalistas e outros profissionais liberais, iniciou a
mobilização pelo fim da escravidão. Essas categorias se mobilizam em torno de um
discurso que afirmava que a causa do atraso econômico brasileiro se devia à
existência da escravidão no país.
Nessa lógica, o desenvolvimento brasileiro dependia necessariamente da
abolição dessa forma de trabalho, característica de um mundo arcaico e atrasado.
O
mundo rural apresentava-se, assim, como causa do atraso econômico e a nova vida
urbana e cultural impunha-se, nesse pensamento, como mais adequada para o
progresso econômico. Verificamos, portanto, que a crítica desses abolicionistas estava
mais relacionada à construção de um novo paradigma de Brasil, urbano e
intelectualizado, do que à preocupação com o bem-estar do escravo propriamente.
Em paralelo com esse movimento abolicionista intelectualizado verificamos um
quadro de mobilização e revoltas efetuadas pelos próprios negros. A ideia que se
construiu na historiografia brasileira a respeito das leis abolicionistas privilegia as
ações realizadas pela classe média brasileira. Seguramente, elas foram de grande
importância, principalmente para dar visibilidade ao movimento na imprensa. No
entanto, o movimento dos próprios escravos ou dos negros livres de camadas
inferiores não pode ser desconsiderado nem silenciado.
Essa conjuntura é marcada pela conjugação de uma luta que se travou nas
cidades, por parte dessa classe média intelectualizada, e por rebeliões de escravos
em fazendas e uma série de revoltas em quilombos.
As leis abolicionistas representam, nesse sentido, o reconhecimento dessas
lutas pelo Governo Imperial. Longe de ser uma concessão bondosa do Império, as leis
demonstram as pressões, não desprezíveis, realizadas por esses grupos sociais
emergentes.
Sabemos que o conjunto de leis publicadas no espaço de 17 anos poucas
mudanças efetivas representaram para a vida dos escravos brasileiros. Seja porque
não eram cumpridas em muitas ocasiões, seja porque o seu próprio conteúdo não se
direcionava aos escravos que de fato representavam a mão -de-obra brasileira,
direcionando-se primeiro aos filhos nascidos a partir de 28 de setembro de 1871 (Lei
Rio Branco), e posteriormente àqueles com mais de 60 anos (Lei Barão de Cotegipe).
E, ainda, não foi acompanhada de um projeto de inclusão social.
No entanto, vale ressaltar que essas medidas visavam, por parte do Governo
Imperial, conter um movimento que ganhava cada vez mais força. As leis ditas
abolicionistas representaram uma vitória para este movimento não pelo conteúdo de
suas cartas legais, mas sim porque o conjunto de mobilizações escravas e dos
abolicionistas significou numa ameaça efetiva à estabilidade do Império.
fonte: Revista África e Africanidades - Ano I - n. 2 – Agosto. 2008 - ISSN 1983-2354 www.africaeafricanidades.com Revista África e Africanidades - Ano I - n. 2 – Agosto. 2008 - ISSN 1983-2354 www.africaeafricanidades.com
1. (D1 – Localizar informações explícitas)
Segundo o texto, qual categoria social predominava no movimento abolicionista brasileiro?
a) Escravos e libertos
b) Grandes fazendeiros
c) Intelectuais, militares, pequenos empresários, advogados e jornalistas
d) Comerciantes de escravos
2. (D3 – Inferir o sentido de uma expressão)
No trecho: “Longe de ser uma concessão bondosa do Império, as leis demonstram as pressões [...]”, a expressão “Longe de ser uma concessão bondosa” significa que:
a) As leis foram aprovadas por compaixão pelos escravos
b) As leis resultaram de uma decisão espontânea do Império
c) As leis foram fruto de pressões e interesses, e não de generosidade
d) O Império não queria aprovar leis abolicionistas, mas as aprovou por benevolência
3. (D4 – Inferir uma informação implícita)
Por que, segundo o texto, as leis abolicionistas tiveram pouco impacto na vida da maioria dos escravos?
a) Porque foram aprovadas durante a República
b) Porque beneficiavam apenas parte da população escravizada, como recém-nascidos e idosos
c) Porque foram aplicadas de forma ampla e igualitária
d) Porque o governo priorizava a liberdade dos escravos adultos
4. (D6 – Identificar o tema do texto)
O texto aborda, principalmente:
a) A importância da Revolução Francesa para a economia brasileira
b) A participação exclusiva da classe média na abolição da escravidão
c) A escravidão no Brasil, as pressões pela abolição e a participação de diferentes grupos sociais no processo
d) A resistência do Império à industrialização brasileira
5. (D7 – Identificar a tese do texto)
Qual é a tese defendida no texto?
a) A abolição da escravidão foi uma iniciativa isolada do governo imperial
b) A escravidão foi abolida por vontade exclusiva das elites intelectuais brasileiras
c) O movimento abolicionista e as lutas escravas foram fundamentais para pressionar o governo a aprovar leis abolicionistas
d) O fim da escravidão ocorreu sem participação popular, apenas por pressão internacional
6. (D8 – Estabelecer relação entre tese e argumentos)
Qual argumento apresentado reforça a tese de que as leis foram resultado de pressões sociais?
a) “As leis abolicionistas representam [...] o reconhecimento dessas lutas pelo Governo Imperial.”
b) “As leis foram elaboradas para incluir socialmente os ex-escravos.”
c) “As leis alteraram profundamente a vida dos escravos no Brasil.”
d) “As elites rurais apoiavam integralmente as leis abolicionistas.”
7. (D9 – Diferenciar partes principais das secundárias)
Qual trecho do texto apresenta uma informação secundária, e não central?
a) “As leis direcionavam-se primeiro aos filhos nascidos a partir de 28 de setembro de 1871 (Lei Rio Branco).”
b) “O movimento abolicionista foi composto, em sua maioria, por intelectuais e profissionais liberais.”
c) “A escravidão no Brasil representou a base econômica durante a Colônia e o Império.”
d) “O movimento abolicionista iniciou a mobilização pelo fim da escravidão.”
8. (D11 – Estabelecer relação causa/consequência)
Segundo o texto, qual foi uma consequência da pressão exercida por movimentos escravos e abolicionistas?
a) A criação de um projeto eficaz de inclusão social
b) A aceleração da Revolução Francesa
c) A promulgação de leis abolicionistas, mesmo que limitadas
d) O aumento do número de fazendas escravistas
9. (D14 – Distinguir um fato da opinião)
Assinale a alternativa que apresenta uma opinião expressa no texto:
a) “A escravidão no Brasil representou a base econômica durante a Colônia e o Império.”
b) “As leis abolicionistas representaram uma vitória para este movimento não pelo conteúdo de suas cartas legais, mas sim porque o conjunto de mobilizações significou numa ameaça efetiva à estabilidade do Império.”
c) “O movimento abolicionista iniciou a mobilização pelo fim da escravidão.”
d) “O mundo rural apresentava-se como causa do atraso econômico brasileiro.”
10. (D18 – Reconhecer efeito de sentido de uma expressão)
Qual o efeito produzido pela expressão “mundo arcaico e atrasado”, usada no texto para caracterizar a escravidão?
a) Criar uma imagem positiva da escravidão como tradição histórica
b) Reforçar a ideia de que a escravidão era compatível com a modernidade industrial
c) Marcar um julgamento negativo, indicando que a escravidão era incompatível com o progresso
d) Indicar que a escravidão era uma inovação para o século XIX